Essa é a história da Sra. Doris

Doris já é uma senhora. É uma cadela de porte pequeno/médio, preta, bem comum. Já não tem os dentes da frente e a catarata já não permite que enxergue perfeitamente. Doris devia viver na rua, ou tinha um dono que não era responsável. É brava com pessoas e outros cães. Pra viver e sobreviver tanto tempo solta por aí só sendo assim mesmo. A vida nas ruas é dura...

Um dia, enquanto provavelmente procurava um pouco de comida, foi atropelada. Ficou na sarjeta, embaixo do sol escaldante de um dia de verão em Tatuí. Quantas horas ela passou lá não sabemos. Quantos a viram lá sem poder se mexer e nada fizeram também não. Ela não comia, não bebia água. Estava com muita dor. Retirá-la da sarjeta foi uma luta. Assustada e com dor só podia se defender mordendo. E mordia com força! Um prendedor de cabelo virou uma focinheira improvisada. Nunca temos uma focinheira quando precisamos! Foi retirada de lá e colocada no carro. Ficou num benheiro isolada, mas se recusava a comer. Até os remédios fortíssimos pra dor pareciam não fazer efeito. No terceiro dia de tentativas com comidas das mais apetitosas foi colocada no soro. Se o atropelamento tivesse afetado algum órgão vital já saberíamos, pois ela não teria aguentado. Mas aguentou. Bravamente. E de tanto insistirmos com aquelas carninhas de latinha ultra-apetitosas começou a comer. Deve ter pensado: "são piores que eu, não vão desistir...". Foi uma comemoração quando lambeu o primeiro pedacinho!

Os dias foram passando. Ela foi comendo. Não levantava. Parecia bem, só não andava.

Aproveitando um mutirão de castração da equipe do Dr. Gustavo Sato em Tatuí pedimos uma avaliação. Mais alguns anti-inflamatórios e um raio-X para avaliar a coluna.

Lá vai Doris para São Paulo fazer seus exames. Nessa altura ela já se arrastava. Estava usando fraldinha por não ter muito controle de urina e fezes. Ela queria mesmo é sair do carro e sair por aí "andando"!

O resultado não foi bom... Nossas esperanças de que ela voltasse a andar desapareceram. Uma fratura completa da parte final da coluna a deixou paraplégica. Provavelmente uma moto passou por cima dela. Teria sido de propósito? Infelizmente existem pessoas que se divertem com isso...

Ainda em São Paulo, Doris foi castrada! Além disso, ela tinha uma hérnia na virilha que precisava ser fechada. E o Dr. Gustavo fez isso, com maestria, como sempre faz. E nem duas horas depois da cirurgia, Doris completamente acordada da anestesia inalatória já estava comendo normalmente. Não recusou o ossinho e se deliciou!

A cada dia ela se superava. Se arrastava porque queria latir com os outros cães, todos vítimas de abandono. Era mais ou menos: "também quero saber o que está acontecendo!". Sua vontade de viver é enorme. Algumas tentativas com carrinhos para animais deficientes foram feitas. Ela não aceitou. Queria se arrastar "livremente". E ela se vira muito bem assim.

O único problema é que a pata traseira em que ela se apóia vai ficando com machucados. A única forma de controlar esses ferimentos foi fazer curativos diários e envolver sua pata com atadura. Outra providência foi restringir um pouco seu espaço. Doris não quer saber, se precisar ela se arrasta quilômetros pra não perder uma novidade!

E assim Doris vai curtindo sua aposentadoria. Ela é muito feliz, mesmo sem poder andar normalmente. Suas patas dianteiras estão muito fortes, mas as traseiras estão finas, pois ela não as movimenta mais.

Ela é muito comportada, fica bem quieta até que o curativo seja feito! E como é o ritual do curativo?

Doris agradece a chance! Fui muito feliz :)